# pequena estória (cont.)

3.

Que distância a separava daquele tecto bege? Dois metros, talvez dois metros e meio. No entanto, se se erguesse e esticasse o braço facilmente alcançaria o candeeiro, o qual possuia um comprimento considerável. Uma lâmpada havia fundido, pelo que sentia agora a necessidade de sair de casa a fim de adquirir uma nova, de forma a substituir a anterior. Mas isso implicaria enfrentar os seus enraizados medos, reviver os seus fantasmas, olhar-se ao espelho, coisa que evitava fazer desde aquela fatídica noite. Desde aquela noite que deixou de ser a pessoa alegre, livre, feliz que era, para se transformar num bicho-de-conta, escondendo-se quando sente o perigo iminente.

Ergueu-se da cadeira de baloiço, atirou bruscamente a manta para o chão, dirigiu-se apressadamente para o interruptor da luz, situado junto à porta e desligou as luzes, respirando ofegantemente até se acalmar novamente. Suspirou aliviada, regressando devagar à sua cadeira, evitando tropeçar em algum objecto na escuridão. Quando alcançou a cadeira, sentou-se cautelosamente, recolheu a manta do chão, cobriu as pernas com ela, recostou-se e olhou para cima. Agora que já não via a lâmpada fundida, a necessidade de sair de casa para comprar uma nova, ficava adiada, até que se sentisse preparada para tal. Não seria uma lâmpada a ditar-lhe o destino, não desta vez. Nem uma lâmpada nem coisa nenhuma. Eu sou como sou e ninguém tem nada a ver com isso. Lâmpada estúpida, pensava ela, imprimindo tanta raiva no seu pensamento, que lágrimas brotavam dos seus olhos, os olhos que todos julgavam adormecidos, para sempre mergulhados em nevoeiro.

Estaria o dia da sua libertação distante? Quando conseguirá finalmente olhar-se ao espelho, e enfrentar as cicratizes que tem no corpo e no seu coração? Quando estará apta a entrar no outro lado do mundo, livre do passado e de recordações funestas? Quando é que remendará a sua manta cor de vinho, quando substituirá a lâmpada fundida no seu candeeiro, quando irá, finalmente, olhar em frente?

~~~

Publicado em: on Maio 15, 2009 at 9:38 pm Deixe um comentário

# pequena estória 1

1.

Chovia intermitentemente do outro lado do mundo, do lado ao qual só estava ligada através de frágeis memórias. Sentada e imóvel na cadeira de baloiço que pertencera outrora à sua mãe, olhava fixamente para cima. Os seus olhos eram desprovidos de emoção, de vida, eram aterradoramente vazios, assim como se julgava ser o seu coração. Pensava-se que tinha medo de olhar directamente para as coisas, sobretudo, para as pessoas. Alguns diziam que era perturbada, que sofria de qualquer distúrbio mental, outros sentiam pena dela, chegando mesmo a deixar-lhe cestas de comida no degrau em frente à sua porta, receando que não se alimentasse devidamente. À parte das teorias da vizinhança, a existência dela constituia uma incógnita, um verdadeiro mistério. Não se sabia nada sobre ela, excepto que sempre ali viveu com a sua mãe, até que esta morreu um dia, deixando-a entregue à solidão, e a ela própria. Diz-se que foi quando deixou de ver, no entanto, nunca se comprovou que havia realmente cegado ou se havia apenas perdido o seu olhar.

~~~
2.

Quando se perde o rumo, a direcção, o sentido, já não precisamos de ver, porque afinal já chegámos a um abismo. Só nos resta parar, desistir, cair. Entregar o destino a um deus e esperar que ele nos guie. Pensando bem, não nos resta muito para ver, apenas a repetição da dor, da iniquidade, da injustiça. Mesmo que preservemos a visão, tendemos a mergulhar no nevoeiro, o qual nunca nos devolverá intactos. Há coisas que não voltam atrás e uma delas é a inocência.

Passava os dias embrulhada numa manta rota cor de vinho, vestida de preto dos pés à cabeça, no entanto, procurava arranjar o cabelo, colocando sempre um laço branco perto da orelha direita. O que fazia era olhar para cima, hora após hora, dia após dia. O que havia por cima dela? Um tecto lascado pintado de bege, com um candeeiro dourado, com três pares de lâmpadas incandescentes, suspenso no centro. O que ela via quando olhava para ele? Talvez o paraíso. Talvez a resposta às suas perguntas.

[...]

Publicado em: on Maio 14, 2009 at 10:49 pm Deixe um comentário

spring’s pain

finalmente veio a Primavera, o que pode significar um novo começo para mim. no entanto, sinto-me presa ao passado, bloqueada pela mágoa, pela desilusão, tenho as pernas atadas, não consigo seguir em frente. as minhas histórias permanecem inacabadas, sem fim, não consigo ler, nem escrever, preciso de curar as feridas, esquecer quem merece ser esquecido, caso contrário continuarei perdida, no meio do nada. com a vida interrompida, sem data prevista para recomeçar.

Publicado em: on Maio 2, 2009 at 11:36 am Comentários (1)

fazer o que gostamos quando o desejamos, sem nos importarmos com o que nos rodeia ou quem nos observa, é o primeiro passo para a liberdade. aproveitar cada momento da vida sem pensar no que vem a seguir é a chave para a plenitude. rodearmo-nos das melhores pessoas do mundo é o segredo para não cair na melancolia. dançar é o melhor remédio para tudo.

Publicado em: on Abril 27, 2009 at 5:48 pm Deixe um comentário

Publicado em: on Abril 18, 2009 at 8:58 pm Deixe um comentário

há coisas que simplesmente não podemos mudar, mas ficamos sempre a pensar que podíamos ter feito alguma coisa. ao invés, continuamos a caminhar dentro da nossa bolha “Actimel” indiferentes a tudo. por outro lado, qualquer coisa seria em vão, não se muda uma vida ao estalar os dedos. haverá sempre cenários tristes ao virar a esquina que nos farão sentir menos que nada, impotentes, mosquitos. what can I do?

Publicado em: on Abril 14, 2009 at 6:04 pm Deixe um comentário

#naive 3

Enrolar o tempo
com divagações
previsões estapafúrdias
(e distantes) do futuro.
Há que distrair
os corações com
televisão amêndoas
romances daqueles profundos.

[E pensar como ficaria aquela parede
pintada de fúcsia ou de amarelo.]

Ocupar a alma
com distracções
e coisas (relativamente) prazenteiras.
Tentar ser feliz
com meia dúzia de convicções
com os pulmões cheios de vontade
e os olhos escancarados de verdade.

[E pensar que há pessoas que se queixam
por tudo e por nada,
ou porque sofrem de uma patologia de nome complicado
que afinal basta pôr uma pomada
ou porque são hipocondríacos maníaco-depressivos-de-qualquer-coisa
ou porque a crise é uma maçada.]

Sentir a plenitude
oferecer meia dúzia de botões de rosa
a uma pessoa anónima na rua.
Respirar tão devagar
e conseguir atravessar paredes
e sentir o odor da terra,
que a chuva humedeceu.

Acreditar sobretudo
na inocência
e nas nossas ideias mais débeis
são elas que nos fazem diferentes
e que nos tornam idóneos.
Ir para o mundo com a consciência
que nada sabemos
que tudo o que existirá, desconhecemos
que tudo será sempre novo
(e colorido).

Publicado em: on Abril 10, 2009 at 9:47 pm Deixe um comentário

Publicado em: on Abril 2, 2009 at 9:36 pm Deixe um comentário

buttons buttons buttons !!

buttons buttons buttons !!!

um dia diferente, na ETA do Carvoeiro.

Publicado em: on Abril 1, 2009 at 8:42 pm Deixe um comentário

# naive 2

[Quem sabe eu não vos quero bem
Quem sabe eu nem sou ninguém
Quem sabe eu não sei quem
Quem sabe eu sou quem queria ser
Quem sabe eu nunca o vou saber
Quem sabe eu sou bem melhor
Quem sabe o medo é minha cruz
Quem sabe o medo é meu motor
Quem sabe o medo é luz
Quem sabe eu não estou só a tentar
desesperadamente uma razão
para seguir, para não parar
pois tudo se passa sem eu ver
Tudo se passa sem eu ver.]

Quem sabe, Foge foge bandido, Manel Cruz

Publicado em: on Março 30, 2009 at 10:39 pm Deixe um comentário

# naive 1

são mais as vezes em que procuro o teu olhar
do que aquelas em que encontras o meu.
e hoje, o tempo em que penso em ti é maior
do que o tempo gasto noutra coisa qualquer.

e gostava que fosse diferente,
não que os tempos se invertessem,
mas que convergissem,
harmoniosamente,
como a música indie que ouço,
como o verão neste inverno,
como o pôr-do-sol no mar.

e esta noite, vem até mim
que eu irei até ti.
a meio caminho do que nos separa,
deverá existir algo que nos una.

Publicado em: on Março 19, 2009 at 9:29 pm Comentários (2)

dar um passo a seguir ao outro, mas sempre sem saber quem sou. sempre a mesma sensação, um sentimento constrangedor que me tenta convencer de que não pertenço aqui. é nos intervalos dos passos que me sinto a flutuar e é aí que duvido. mas depois agarro-me às coisas, sinto-lhe as formas, as texturas, encho o ar com a minha voz, e a dúvida desfaz-se. outras vezes, nos intervalos dos passos, a sensação é tão forte que chego mesmo a chorar, com medo que me levem daqui, do lugar onde (agora sei-o) quero pertencer. mesmo por detrás das coisas mais concretas, a dúvida perdura: isto é real?

Publicado em: on Março 16, 2009 at 11:49 pm Comentários (2)

às vezes precisamos de uma pausa dos outros. de mantermos uma distância suficiente, satisfatória, de forma a que nada nos perturbe. porque as pessoas são exaustivamente cansativas e previsíveis, arrastando-nos com elas. existe um ponto, um limite, em que, deliberadamente, tomamos a decisão de nos afastarmos, não é por desprezo (ainda que a isso nos conduza), ou arrogância, não é por narcisismo ou má vontade, é simplesmente, por necessidade. e há momentos em que se não nos escolhemos a nós ao invés dos outros, nunca mais nos voltaremos a encontrar, porque caminharemos para a irreversível homogeneidade da sociedade. e antes que me perca a mim, prefiro perder, temporariamente, os outros. porque quando não tivermos a liberdade para escolher com quem queremos estar, então não temos nada.

Publicado em: on Março 2, 2009 at 3:11 pm Comentários (2)

What’s the point?

There is no point, we just carry on and put our hopes on a distant god, which can be anything or anyone, even ourselves. We keep our hopes there, to bring them when we need them. In fact the concept of God isn’t more than a safe box where we save our souls and our hearts. The real God is you!

Publicado em: on Fevereiro 16, 2009 at 9:57 pm Comentários (2)

don’t give up

Everything have the other side, beyond the obvious.
The bad things are also good things.
My head is a mess and my heart it’s broken up.
But deep inside me there’s a small force that push me up.

I’m pretty small right now,
i never thought you would give up of me.
We ended before we began
and i would fight for you!

People don’t find anyone.
We missed each other.
Love is falling apart
and so is my heart.

But today,
everything has changed
my mind is clear now
i’m feeling stronger
don’t know how.

So keep trying
just don’t give up,
sun will keep lighting you.
You must carry on.

Publicado em: on Fevereiro 13, 2009 at 9:49 pm Deixe um comentário

éramos mais que livres e agora somos menos que nada. porque te foste embora. deixaste-me a memória daqueles encontros fortuitos, surpreendentes, as horas em que fugimos (aí deliberadamente) à rotina, à monotonia. sempre fomos da mesma cor, uma cor diferente de toda a gente, que nos une. tu dizias: tu procuras o que não te posso dar. mas davas sempre mais do que previas. eu, amor metafísico e tu, algo mais. mas o que queríamos era prolongar as conversas, os beijos, os abraços. juntos, sentiamo-nos seguros, protegidos. e nada do que viesse nos abalava, nada fazia morrer o que existia entre nós. e o que existia sempre ignorámos, preferindo pensar que não era nada. nada de importante, que exigisse qualquer tipo de diligência. e agora, decidiste que era altura de desistir da (nossa) liberdade e considerar-te (ilusoriamente) livre para outra mulher, (estupidamente) adequada para ti, que (supostamente) te faz (mais) feliz que eu. deste o salto que nunca pensei que desses. e apesar de chorar (de alegria) por ti, por dentro deixas-me com falta de ti, dos teus ideais progressivos na minha boca. das tuas palavras (às vezes falsas) nas nossas mãos, inseparáveis. venho de ti com saudades e ciúmes e vou para ti por amor. serei como tu, para nunca te perder.

(nobody will steal our freedom)

Publicado em: on Fevereiro 8, 2009 at 11:23 pm Comentários (1)

you’re just gone

One day you must go
you must get a life
a good job, a pretty wife.

One day you must go
you’ll touch happiness
you’ll learn how to love
one day you grow up
and you’ll leave me here,
crying for you.

That day is today
and i’m feel empty
as i never thought i would become.
Today you’re just gone
and now i know how deep
was my love.

Publicado em: on Fevereiro 6, 2009 at 10:19 pm Deixe um comentário

por que é que tudo na vida é tão complicado?

Publicado em: on Fevereiro 4, 2009 at 12:02 am Deixe um comentário

just keep talking

Just keep talking, don’t let me fall
keep me away from my thoughts
let me be your friend again.

Just keep me safe, don’t let me dream
My dreams make me suffer too much
and then i’ll want impossible things.

Please keep me close, don’t let me escape,
because beneath my deep pain,
i keep dreaming with the day
when you’ll come to save me.

Just keep me close,
just keep talking.

Publicado em: on Fevereiro 1, 2009 at 9:53 pm Deixe um comentário

o doce sabor da desilusão tende sempre a voltar, mais cedo ou mais tarde. como alguém especial diz, “a história repete-se”. tendo a acreditar no que antes neguei. não se pode esperar nada de ninguém, porque no fim somos sempre nós que ficamos a lamber as feridas. questionamo-nos sobre o que errámos, o que não demos, o que não temos, o que não somos. o que somos para os outros, afinal?

Publicado em: on at 7:25 pm Comentários (3)

keep it simple

o amor é mudo. tímido, envergonhado, secreto, adolescente. o amor é mudo e triste, quando apenas existe na nossa imaginação. mas poder sentir a emoção, a vergonha, a fantasia, poder sonhar um mundo apenas com as nossas cores. poder sentir é tudo. ainda que seja no silêncio das minhas palavras. na voz dos meus suspiros. na tua ausência. mas alguém disse: keep it simple. so, let’s play the fucking game. (thank’s)

Publicado em: on Janeiro 28, 2009 at 11:44 pm Deixe um comentário

o mundo tem tanto de bonito como de decadente. oxalá o meu espírito não se torne decadente ao ponto de rejeitar a beleza, preferindo a utopia da perfeição. oxalá os meus olhos não deixem de ver o que importa. oxalá o meu coração continue apaixonado pela vida e por este mundo, cruel e magnífico.

Publicado em: on Janeiro 25, 2009 at 11:54 pm Comentários (2)

Wishes III

O Natal é mais do que a festa da família, significa um recomeço, um recalibrar de forças, para uma nova temporada, um novo ano. Em 2009 aproveita melhor os pequenos milagres da vida, está mais atento ao mundo e àqueles que amas, dá sem esperar receber, valoriza o que tens de bom na tua vida e aprende com os momentos menos bons, aproveita ainda mais a vida, porque existir é muito mais que viver e viver é amar quem somos!

Espero que o Natal vos tenha adoçado o coração tanto quanto a mim (estou rodeada de chocolates), para que 2009 seja ainda mais delicioso! Um bom Natal!

M.V.

Publicado em: on Dezembro 25, 2008 at 10:43 pm Deixe um comentário

Wishes II

Por favor, não atirem o vosso lixo pela janela do automóvel enquanto viajam, existem recipientes próprios para o efeito, tenham mais consciência ambiental, o mundo também é vosso e para vós!

Publicado em: on Dezembro 20, 2008 at 10:47 pm Deixe um comentário

Someone’s idea

As pessoas podem mudar a capa do telemóvel, a skin do computador, mudar o estilo de roupa, mas o essencial permanece inalterado, as dúvidas existenciais não vão desaparecer, os problemas insolúveis não se vão resolver, e as pessoas menos boas continuarão a ser menos boas.

(isto a propósito de uma conversa sobre pessoas com personalidades fortes, às vezes confundidas com pessoas menos boas; e sobre a incapacidade de algumas pessoas demonstrarem os sentimentos bons que teimosamente escondem)

Publicado em: on Dezembro 15, 2008 at 7:42 pm Deixe um comentário

Futures

Mais importante que guardar algum espaço para amar alguém, é garantir que nunca vou deixar de me amar.

Publicado em: on Dezembro 9, 2008 at 10:53 pm Comentários (2)

A wall’s detail…

Publicado em: on Dezembro 8, 2008 at 10:34 pm Deixe um comentário

Wishes

You have changed me, now change the world. It’s my Christmas wish.

Publicado em: on Dezembro 5, 2008 at 11:15 pm Deixe um comentário

Sometimes

Às vezes sinto que o que sou não chega. Sinto que preciso de mais, preciso de ser maior, penso que me falta o que não tenho e sem o que não tenho nunca vou ter tudo o que preciso para ser maior, para existir da forma que gostaria, para conseguir tudo o que desejo. Às vezes penso que gostaria de ser outra pessoa, esta ou aquela, que assim seria mais feliz, parece que sou demasiado exigente com o que quero para mim. No entanto, ser eu própria é mais do que o que jamais poderei pedir. Poder usufruir da nossa individualidade e personalidade é mais do que um privilégio, é saber viver, é uma forma de estar que deverá preencher qualquer lacuna que teime em nos assaltar esporadicamente. Nunca ninguém é quem queria ser.

Publicado em: on Novembro 28, 2008 at 12:05 am Comentários (3)

Beyond the evolution

Há momentos em que precisamos do mundo e o mundo já não existe mais em nós. Há momentos em que precisamos das pessoas e elas deixam de existir, deixando-nos sozinhos com o nosso mundo. Há momentos em que precisamos de nós e descobrimos que nos dissolvemos no que resta do mundo e das pessoas. Há momentos em que percebemos que não existe mais nada. O que havia de essencial e bonito perdeu-se no meio da evolução.

Publicado em: on Novembro 17, 2008 at 11:28 pm Deixe um comentário