A minha mãe prevê o futuro. Diz que um dia o meu namorado/marido se vai chatear comigo, porque chega a casa do trabalho e não tem o jantar pronto. (Eu não sei cozinhar, ou pelo menos, não o faço, por enquanto). E dizer chatear é um eufemismo, porque o mais certo é mesmo bater-me (já não é a 1ª vez que me diz isto) e depois como para disfarçar um óbvio fatalismo e preconceito, diz-me um ‘oxalá que me engane’. Pelos vistos posso perder o homem se não souber cozinhar e a minha mãe considera vital para uma mulher ter um homem, logo toda a mulher tem de saber cozinhar. Em nenhuma parte do discurso reparei na possibilidade de o homem cozinhar. Os homens não têm braços, mãos, odor, tacto, paladar, inteligência? Começo a desconfiar que não… É que segundo a minha mãe, eles dependem totalmente de uma mulher, sendo, portanto, inúteis, inábeis, incapazes, e que ainda se zangam com as pessoas (mulheres) que não cozinham. E que assim é que está bem, que é disso que tenho de ter consciência e que as coisas não são como eu penso que são. Que ainda me há-de ver a fazer tudo o que o homem-do-futuro quer, para evitar desse modo que ele saia pela porta fora e me deixe sozinha e destroçada. (A parte do sozinha e destroçada é apenas para dar ênfase à coisa). Portanto, parece que desejar uma coisa chamada ‘igualdade’ de direitos e deveres, é uma utopia e que nada pode ser feito para mudar o mundo em que vivemos, nomeadamente, a preguiçosa espécie masculina e que, portanto, para se adquirir um indivíduo dessa espécie, há que fazer por isso e deixá-los ver o futebol no sofá e levar-lhes a cerveja fresquinha enquanto nós nos entretemos (felizes, porque ainda temos de parecer felizes também) na cozinha a fazer o jantar. E parece que ficar chocada com o que ouvi não caiu bem e suscitou ainda um ódio maior aos presentes (por mim, obviamente), porque parece que todos estavam contra mim e que eu é que sou a criança da casa e não sei do que falo e só digo disparates. E se calhar não estão enganados, mas pelo menos ainda consigo pensar pela minha cabeça, e não limitar-me a lutar pelos dogmas alheios. Não pensem que a minha mãe é má pessoa, apenas nunca lutou por ela, mas sempre pelos outros. E sempre achou que assim é que devia ser. Mas a capacidade que ela tem de prever o futuro é que me fascina. Consegue ver o meu homem-do-futuro a entrar em casa e eu a pintar as unhas ou a ver televisão e logo uma discussão acesa que se desenrola em consequência da ausência de paparoca, com direito a pancada e assim, e ver-me no fim, sozinha, infeliz, sem homem… Fantástico. Maya, cuida-te, que tens sucessora.
Episódios de uma família esquisita
O URI para TrackBack desta entrada é: http://coisadepessoaesquisita.wordpress.com/2007/06/30/episodios-de-uma-familia-esquisita/trackback/
Pois, nisso de prever o futuro mães (avós) são todas iguais; com os rapazes muitas vezes é a mesma coisa – minha avó, 20 anos atrás disse que eu iria ser sempre um desgraçado, um inútil que não sabe fazer nada, um homem sem Deus, ou arranjava uma mulher para cuidar de mim ou ia morrer à fome (cá está o fenómeno da cozinha mais uma vez, parece ser importante); não arranjei mulher nenhuma (acontece), não morri à fome e até aprendi a cozinhar (não é grande coisa mas come-se). Para inútil não está assim tão mal…
Mas prontos, aconselho-te a aprender a cozinhar ou então, se calhar esta é melhor, a casar com um homem mais pequeno que tu; é que se der em violência o casamento pelo menos já se sabe quem vai apanhar no «corpo»…
**
(alonguei-me no comentário, mas isto até me traz memórias engraçadas)
Bem..eu estava a adorar a história, parecia um sonho, principalmente a parte de se ficar no sofá depois do jantar a beber a bejeca:)
Vá…brinco…estiveste bem;)
Abraco
Eu acho que não há problema. Se perderes esse, logo arranjas outro. E esse outro ficará contigo durante o tempo em que o conseguires enganar (ou seja, enquanto conseguires mantê-lo calmo sem perceber que não sabes cozinhar nem esticar os lençóis). Depois disso, logo arranjarás outro. Não é assim tão importante. Importante é que consigas que ele não perceba.
Eheheheheheh…que cruel…
Jn,
Pois, parece que é um problema comum às mães/avós… Eu acho que nos subestimam demasiado… Um homem pequeno tb pode ter muita força! Lool
Lol…
Luís,
Pois,eu sei que é ’sonho’ de qualquer homem (ou da maioria)- futebol+ bejeca- a combinação ideal n é? =)
Nuno,
eu não engano ninguém, até porque não tenho problema nenhum em assumir que não sei cozinhar (sei alguma coisa, o essencial), portanto, se não quiser ficar + comigo, não será por isso… E esticar os lençóis acho que toda a gente sabe. ;P
Marta, esticar os lençóis não sei se toda a gente sabe, mas engelhá-los isso sim;)
=) Pois, engelhá-los toda a gente sabe…
só discordo qdo ela disse cerveja fresquinha… no caso tem que ser extremamente gelada mesmo!
esquisitices…. ;P