“...É a escrever que todos os dias tenho consciência da minha identidade.” Li esta frase no romance que ando a ler, Sputnik meu Amor, de Haruki Murakami, e devo dizer que me assenta como uma luva. De facto, quando escrevo consigo realmente organizar os pensamentos, as emoções, catalogá-las como se faz com os livros nas bibliotecas, para saber encontrá-las quando precisar de as resgatar. Catalogar as emoções é uma tarefa importante, mas perceber a sua origem assume-se como algo que faço quase mecânicamente, ou seja, uma resposta natural do meu cérebro aos estímulos que recebeu, e, portanto, tudo o que daí se precipita torna-se ligeiramente out of control. Agora que penso nisso, não será ligeiramente um eufemismo? Talvez. Às vezes. Mas se pudessemos controlar todas as reacções a que somos submetidos diariamente, debaixo deste sol cruel, as próprias acções não teriam piada nenhuma. Provocar os outros idem aspas. E eu acho que faço parte do conjunto de pessoas que vê uma graça particular nisso. E porquê? Não há grande explicação, simplesmente é uma das minhas formas de conhecer quem quero conhecer. É um método, como outro qualquer.
Já me estou a perder.
Falava da importância de escrever, e igualmente de descortinar a origem das emoções. Alguém me disse que um ansioso não deve pensar demasiado nas coisas, que acaba por ser prejudicial. Evidente que eu me englobo nesse leque de indivíduos, os ansiosos: tenho uma pirâmide gigante à minha frente e sei que tenho de a escalar, mas não tenho paciência para ir degrau a degrau, passo a passo, ao invés, para mim é urgente encontrar uma solução que me leve ao topo de uma só vez. Eu anseio pelo topo da pirâmide como a generalidade das pessoas anseiam pelo dia de amanhã. Há uma diferença substancial entre as duas perspectivas perante a pirâmide, que é como quem diz, a vida. Então alguém me disse que tudo evolui, tudo é progressivo e tudo está ao nosso alcance, quase sem darmos por isso, concretizamos etapas que pensámos nunca o conseguir, coleccionamos vitórias, sucessos, contornamos obstáculos com uma destreza surpreendente, muitas vezes mesmo quando se multiplicam. Conseguimos, de facto, tudo, quase sem nos apercebermos, à velocidade de um carrousel é certo, mas com a vantagem de apreciarmos a viagem, doce e bonita. E aproveito para dizer que esse alguém tem toda a razão, de que vale criarmos uma obstinação numa determinada meta, se deixamos tudo o resto para trás, tudo o que nos envolve e alimenta? Que importância tem o clímax de um objectivo maior, quando todos os outros pequenos objectivos ficarem insolúveis em águas profundas?
De uma coisa estou certa, não conseguiria viver sem escrever.
E que bem escreves tu sobre a vida…
Sempre óptimo.
Vou sempre aparecendo, mas mais caladinho;)