Starálfur

Outra vantagem de escrever é que permite-nos transformar um emaranhado de emoções, sentimentos e pensamentos, em algo prático, ou seja, impele-nos a agir, no sentido de transformar o abstracto em concreto, tomar decisões, resoluções, encontrar novas estratégias que de alguma forma resolvam os nossos eternos dilemas, as sempre profundas interrogações, as nossas evidentes fragilidades. Para mim a fragilidade é evidente, bastante evidente por vezes, demasiadas vezes evidente. Desconheço que assim seja para a maioria das pessoas com quem me relaciono e desejava que assim fosse comigo.

Olho para ela e consigo adivinhar-lhe a alma, imagino (e apesar de não passar de imaginação, acredito que esteja perto da realidade) a dimensão da sua frustração pelo sem-número de coisas que gostaria de ter feito sem as ter concretizado, abdicando de si pelos outros, como eu vejo as vezes em que se anulou deliberadamente em função de um bem maior (assim o entendia), o número de desilusões com que se deparou ao longo da vida e lhe foram abrindo lentamente uma ferida que nunca se curaria, nem com a força violenta e perserverante da rotina, nem com o orgulho nas vidas que criou, diligentemente, nem com o feed-back afectivo das pessoas que sabe (sim, eu penso que sabe) que a amam, claro que amam, (como se chama a um sentimento tão intenso que nos veda a vida se estivermos longe dessa pessoa, que nos emudece, que nos põe a olhar para baixo, sempre para baixo) assim como as pessoas que partiram a amaram, (mesmo que se esqueça ou teime em esquecer esse facto). Olho para ela e leio os seus olhos tristes, a sua falsa fúria às vezes grita por ajuda, mas de imediato é silenciada pela sua arrogância, engolida pelo orgulho. Olho para ela e, de facto, basta olhar para perceber quem é, é a isso que chamo de fragilidade. Seria mais confortável se fosse incapaz de a detectar, se me fosse vedado o acesso à verdade do mais íntimo de cada um, ao invés parece que a verdade se passeia perante os meus olhos, insinuando-se, procurando a minha atenção, provocando-me, aliciando-me e por fim, inocentemente, estendendo-me a mão à procura da minha. E eu aceito, tenho de aceitar, quem é que recusa a verdade? Aceito-a cegamente… em troca de um pedaço da minha própria alma.

Mas será que escrever nos torna menos frágeis?

Publicado em: on Setembro 5, 2008 at 10:16 pm Deixe um comentário

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