“Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens? “
Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami
Este parágrafo deixou-me a pensar. Reflecte tão bem o que sinto, considero a solidão tão real na sociedade de hoje, posso até compará-la a um vírus que se espalha cruelmente pelo ar, infectando um terço da população. Eu diria que a solidão começa com uma vontade de escapar à realidade repetitiva, aborrecida, banal, um desejo cada vez mais sólido de evitar as conversas de circunstância, as pessoas com quem, efectivamente, já não nos identificamos (e de facto, não temos culpa de sermos seres volúveis e vermos constantemente mudar os nossos interesses, atracções, vontades, necessidades), para além de existir uma dificuldade crescente em estabelecer ligações afectivas com as pessoas, refiro-me a relações íntimas, verdadeiros laços interpessoais, que ultrapassam o superficial, que unem as pessoas, até ao âmago dos seus corações. Existe, sobretudo, alguma relutância nas pessoas em entregarem-se, mostrarem quem realmente são, partilharem o mais íntimo dos seus devaneios, pensamentos, dúvidas, como se receassem perder a sua liberdade. A liberdade é para ser usada com liberdade, ou seja, como cada um bem entender, senão seria apenas mais um conceito vão como tantos outros, no entanto, abrirmos o coração a alguém, deixar que nos vejam só pode significar uma liberdade ainda maior, que nos permitirá abrir mais portas, viajar para outra dimensão, onde poderemos descobrir coisas surpreendentes, que até então desconhecíamos. A solidão como outros problemas da actualidade, depende em primeiro lugar, de nós e da nossa forma de estar na vida, da nossa vontade de mudar.
Não sei se escrever nos torna menos frágeis, acredito que nos torna mais atentos.
Partilho desse mesmo sentimento. Mas não nos podemos esquecer, que os outros também fazem a nossa solidão.
Se calhar a falta dos outros…