[(...) Para mim, era como um sonho vivo: a sua simples contemplação despertava um horizonte infinito de fantasia, do grego ao gótico, do vulgar ao divino.]
in A história secreta, Donna Tartt
Lembrar. Esquecer. Lembrar. Esquecer. Gravar memórias por cima de memórias, como se gravam filmes por cima de filmes nas cassetes de vídeo antigas. Para esquecer aquelas que nos incomodam, que nos inquietam, que nos destroem. A vida é uma triste sucessão de memórias gastas, e a nossa memória um livro de recortes cuidadosamente construído, de momentos. Lembrar. Esquecer. Nunca havemos de conseguir criar algo eterno, que perdure para todo o sempre, imune à pressão dos dias, à força da erosão da rotina. Tudo tem um fim. E mesmo que lhe troquemos as letras, ele não deixa de existir e de se insinuar. Como eu me insinuo quando te quero. Como tu inventas discursos bonitos quando me queres. Tudo tem um fim e mesmo que acreditemos em ressurreição um dia vamos ter de o admitir. Mesmo que não morra o que existe entre nós, há coisas que nascem para lá do nosso mundo e que nos vão separando, devagar. Lembrar. Esquecer. O que escolher, se ambas as hipóteses me corroem o coração? Proximidade ou distância. Se me aproximo, corro o risco de cair no abismo da dependência, se me afasto mergulho na ressaca da ausência. Lembrar, esquecer, ficar, fugir. Amar.