1.
Chovia intermitentemente do outro lado do mundo, do lado ao qual só estava ligada através de frágeis memórias. Sentada e imóvel na cadeira de baloiço que pertencera outrora à sua mãe, olhava fixamente para cima. Os seus olhos eram desprovidos de emoção, de vida, eram aterradoramente vazios, assim como se julgava ser o seu coração. Pensava-se que tinha medo de olhar directamente para as coisas, sobretudo, para as pessoas. Alguns diziam que era perturbada, que sofria de qualquer distúrbio mental, outros sentiam pena dela, chegando mesmo a deixar-lhe cestas de comida no degrau em frente à sua porta, receando que não se alimentasse devidamente. À parte das teorias da vizinhança, a existência dela constituia uma incógnita, um verdadeiro mistério. Não se sabia nada sobre ela, excepto que sempre ali viveu com a sua mãe, até que esta morreu um dia, deixando-a entregue à solidão, e a ela própria. Diz-se que foi quando deixou de ver, no entanto, nunca se comprovou que havia realmente cegado ou se havia apenas perdido o seu olhar.
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2.
Quando se perde o rumo, a direcção, o sentido, já não precisamos de ver, porque afinal já chegámos a um abismo. Só nos resta parar, desistir, cair. Entregar o destino a um deus e esperar que ele nos guie. Pensando bem, não nos resta muito para ver, apenas a repetição da dor, da iniquidade, da injustiça. Mesmo que preservemos a visão, tendemos a mergulhar no nevoeiro, o qual nunca nos devolverá intactos. Há coisas que não voltam atrás e uma delas é a inocência.
Passava os dias embrulhada numa manta rota cor de vinho, vestida de preto dos pés à cabeça, no entanto, procurava arranjar o cabelo, colocando sempre um laço branco perto da orelha direita. O que fazia era olhar para cima, hora após hora, dia após dia. O que havia por cima dela? Um tecto lascado pintado de bege, com um candeeiro dourado, com três pares de lâmpadas incandescentes, suspenso no centro. O que ela via quando olhava para ele? Talvez o paraíso. Talvez a resposta às suas perguntas.
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