Por favor, não atirem o vosso lixo pela janela do automóvel enquanto viajam, existem recipientes próprios para o efeito, tenham mais consciência ambiental, o mundo também é vosso e para vós!
Someone’s idea
As pessoas podem mudar a capa do telemóvel, a skin do computador, mudar o estilo de roupa, mas o essencial permanece inalterado, as dúvidas existenciais não vão desaparecer, os problemas insolúveis não se vão resolver, e as pessoas menos boas continuarão a ser menos boas.
(isto a propósito de uma conversa sobre pessoas com personalidades fortes, às vezes confundidas com pessoas menos boas; e sobre a incapacidade de algumas pessoas demonstrarem os sentimentos bons que teimosamente escondem)
Futures
Mais importante que guardar algum espaço para amar alguém, é garantir que nunca vou deixar de me amar.
Sometimes
Às vezes sinto que o que sou não chega. Sinto que preciso de mais, preciso de ser maior, penso que me falta o que não tenho e sem o que não tenho nunca vou ter tudo o que preciso para ser maior, para existir da forma que gostaria, para conseguir tudo o que desejo. Às vezes penso que gostaria de ser outra pessoa, esta ou aquela, que assim seria mais feliz, parece que sou demasiado exigente com o que quero para mim. No entanto, ser eu própria é mais do que o que jamais poderei pedir. Poder usufruir da nossa individualidade e personalidade é mais do que um privilégio, é saber viver, é uma forma de estar que deverá preencher qualquer lacuna que teime em nos assaltar esporadicamente. Nunca ninguém é quem queria ser.
Beyond the evolution
Há momentos em que precisamos do mundo e o mundo já não existe mais em nós. Há momentos em que precisamos das pessoas e elas deixam de existir, deixando-nos sozinhos com o nosso mundo. Há momentos em que precisamos de nós e descobrimos que nos dissolvemos no que resta do mundo e das pessoas. Há momentos em que percebemos que não existe mais nada. O que havia de essencial e bonito perdeu-se no meio da evolução.
The moon’s feelings
A vida é um processo de tentativa e erro constante, e nada do que se obtém é imediato nem tão pouco corresponde ao que desejamos. No entanto, tudo o que aprendemos serve para re-calibrarmos a direcção, apertarmos o cinto e prepararmos o corpo para mais uma viagem. Mas o que seria de nós se tudo fosse perfeito? Extinguia-se o desejo, a emoção, a diferença, a criatividade, seríamos escravos de nós próprios. A vida deve ser vista como uma aventura e não como um destino pré-concebido.
Hope
Um abraço contrariado, quieto, tímido. Um abraço que mesmo sem entendermos o significado, mesmo odiando aquela pessoa, desejámos, ardentemente, que acontecesse. Porque não se pode odiar uma pessoa para sempre, tem de existir alguma força no mundo que ajude a unir duas almas que nunca se deviam ter afastado, tem de existir algum deus que dissolva as mágoas mais insolúveis que habitam os nossos corações. Tem de existir esperança. Tem de existir esperança em nós, para que possamos transmiti-la aos que aí vêm.
You don’t have any messages.
É assim que me sinto. Com a mesma sensação que temos quando abrimos uma caixa de mensagens e está vazia.
We all have secrets
Todos nós temos segredos, pequenos detalhes que guardamos clandestinamente. Pequenos detalhes, que podem fazer a diferença, mudar-nos para sempre, mas que superficialmente, não passam de ténues relâmpagos que desfilam nas nossas cabeças, sem que ninguém se aperceba que eles estão lá. Eles estão lá, debaixo da pele, magoam, mas nunca podemos admitir que dói, porque isso seria admitir que eles existem e denunciar os segredos que tanto nos esforçámos por esconder. Nunca poderemos revelar os nossos segredos, porque seria o fim de uma vida secreta, bonita e que só a nós pertence. Mesmo que o arrependimento nos atinga, nunca saberemos se era aquele o caminho certo. Nunca poderemos saber, só nos resta experimentar, só nos resta viver, mesmo que seja secretamente.
Não vai ser bom.
Jogaremos com todas as peças do jogo? A vida é curta mas será que a aproveitamos da melhor forma? Haverá alguma coisa realmente grande que baste para justificar o sentido de uma existência? Não serão meras manobras de diversão todos os jogos em que abarcamos durante esta viagem? (Para nos distrair de quê?) Precisamente. (Não faz sentido) Claro que faz, a vida é uma treta, não me digas que ainda não percebeste que não existe nada para lá do universo da tua fantasia. (Os sonhos…) Também não passam de passatempos que optamos por designar por objectivos, planos, metas, desejos. (Então afinal o que estamos aqui a fazer? Se nada nos satisfaz, que tipo de bichos somos nós?) Tentando excluir a hipótese esotérica da vida constituir um teste divino pelo qual temos de passar, alguma espécie de passagem para outra dimensão, outra vida, outra forma… e a hipótese igualmente católica de existirmos porque deus assim o desejou… efectivamente, só vejo a vida como uma grandessíssima metáfora, ironia de todas as coisas, um jogo diabólico que temos de saber jogar, um facto sem explicação, algo em que não adianta gastar energia a pensar nisso, a vida é o que quiseres que ela seja, e a ironia que existe reside nesta questão: até que ponto consegues o que desejas? Até que ponto não te deixas tentar pelo diabo, onde reside a beleza e a verdade afinal? No mal ou no bem? O que és tu então? E o que queres ser? (Eu estou bem assim, obrigado.) Assim como? (Na sombra, invisível, transparente, translúcido, neutro, e é aqui protegido por parêntesis que quero continuar a estar…se é que me entendes) Não sabia que gostavas de passar despercebido. (Há muitas coisas de mim que desconheces.)
Revelação
Por mais compromissos que nos esperem, ou responsabilidades que tenhamos, por mais ocupados que sejamos, há sempre uma fracção de segundo, um minuto, um momento, em que sentimos o vazio do mundo e desejamos ardente e secretamente que uma tragédia se abata sobre nós, qualquer coisa, para deixarmos de o sentir. Desejamos algum acontecimento, uma intriga, uma morte, um ciclone ou um tornado, para agradecermos a deus por estarmos vivos e adormecermos gratos e satisfeitos por viver só mais um dia neste feliz abismo.
Where do i start, where do i begin?
[(...) Para mim, era como um sonho vivo: a sua simples contemplação despertava um horizonte infinito de fantasia, do grego ao gótico, do vulgar ao divino.]
in A história secreta, Donna Tartt
Lembrar. Esquecer. Lembrar. Esquecer. Gravar memórias por cima de memórias, como se gravam filmes por cima de filmes nas cassetes de vídeo antigas. Para esquecer aquelas que nos incomodam, que nos inquietam, que nos destroem. A vida é uma triste sucessão de memórias gastas, e a nossa memória um livro de recortes cuidadosamente construído, de momentos. Lembrar. Esquecer. Nunca havemos de conseguir criar algo eterno, que perdure para todo o sempre, imune à pressão dos dias, à força da erosão da rotina. Tudo tem um fim. E mesmo que lhe troquemos as letras, ele não deixa de existir e de se insinuar. Como eu me insinuo quando te quero. Como tu inventas discursos bonitos quando me queres. Tudo tem um fim e mesmo que acreditemos em ressurreição um dia vamos ter de o admitir. Mesmo que não morra o que existe entre nós, há coisas que nascem para lá do nosso mundo e que nos vão separando, devagar. Lembrar. Esquecer. O que escolher, se ambas as hipóteses me corroem o coração? Proximidade ou distância. Se me aproximo, corro o risco de cair no abismo da dependência, se me afasto mergulho na ressaca da ausência. Lembrar, esquecer, ficar, fugir. Amar.
Foge foge bandido
[O nosso sexo são as palavras, os adjectivos o carinho, o sarcasmo a ternura.]
by Mr. Bandit
Heart of glass
Subi enfastiada um lanço de escadas e, subitamente, vislumbrei a tua nuca, o teu cabelo, a tua pele morena, as tuas costas às riscas. Apressei o passo, dirigindo-me a ti movida a esperança e fantasia, mas logo o inverti a meio do percurso, quando me apercebi, desiludida, que não eras tu. E mesmo afogada em frustração, consegui vir à superfície e fingir interesse em conversar com alguém que encontrei no teu lugar. ~
Out of control
E lá estava ele. Outra vez. Por quê? Por quê outra vez? E lá estava ele, absorto em banda desenhada, exibindo uma imagem pornográfica, muito naturalmente, muito timidamente, esmagando-me e enchendo-me de vontades, de pornografia, de natureza e de timidez.
Distractions
Imagino que a felicidade é apenas um punhado de momentos, que se diluem na veloz viagem do tempo, na armadilha da memória selectiva, no nevoeiro da distância, na claustrofóbica realidade, e talvez, por fim, no esquecimento. Digo talvez porque também há os que não se esquecem, como não se esquece o enredo de um filme que nos marcou, ou de um livro que nos mudou, também há pormenores, pequenos detalhes, insignificâncias que conseguem alterar o nosso rumo, o nosso percurso. (Temos de viver tanto tempo à espera de um momento, daquele momento, daquela pessoa) Acredito que a felicidade não é absoluta, é um absurdo, é claro que é efémera, é claro que somos nós a protegê-la, é claro que… (E viver tanto tempo desse momento, desde a sua génese até à sua derradeira diluição, e depois viver sem ele, já sem memória, sem distância, sem estarmos longe ou perto, sem realidade, incubados em pura claustrofobia, em puro declínio, num lento abraço com a morte) …é claro que tudo é relativo e morrer não é assim tão mau.
Insomnia
Adormecer pode constituir um verdadeiro desafio para muitas pessoas. Existe um verdadeiro mundo para descobrir, quem sabe para nos perdermos, um autêntico mundo por resolver. O nosso estado de vigília poderia contar a história da nossa vida, poderia mesmo revelar quem somos, se por algum desleixe ou incontinência, deixássemos ecoar a voz dos nossos pensamentos. É curioso pensar que por detrás da aparência coesa de uma pessoa, existe uma pirâmide de cartas derrobada, um puzzle de mil peças desfeito, um castelo de areia destruido, um mundo inteiro (às vezes também coeso) por construir.
A canção mudou
[(...) Todo esse amontoado de coisas calmas e razoáveis, composto de coisas vulgares, constituía a verdadeira beleza, a verdade. Por toda a parte a Beleza era possível de encontrar. ]
A história de Septimus Warren Smith, in Contos de Virginia Woolf
………………………………………
Sinto que finalmente despertei. De um torpor que há muito me colava as asas, impedindo-me de voar. Saí da ilha onde me isolei do resto do mundo, aceitando apenas a solidão como convidada e companhia. Durante muito tempo teimei em ignorar tudo o que havia à minha volta, considerando que tudo era menor, desprovido de importância, valor, estando tudo abaixo de mim. Só eu existia, realmente, os meus pensamentos, os meus problemas, a minha visão (destorcida) da realidade. Eu não queria participar naquela realidade, aparentemente de barro. Eu não sabia participar nela. Percebi que havia algo a ganhar se me esforçasse por aprender, de facto, a integrar-me num mundo até então tão distante, tão brumoso. E, finalmente, despertei, aprendi, voei. Agora sim, consigo ver mais do que a minha miopia me permite, consigo alcançar o que nunca tinha ansiado, agora sim, sou mais um ser, orgulhosamente, à deriva nesta amálgama de cores que é o nosso mundo.
M.V.
Ensaio de palavras
Penso no que estou a fazer e
no que pode acontecer
se o céu pode cair ou
o chão estremecer.
Penso no que gostaria de ter sonhado hoje e não sonhei.
Em tudo o que me deste e eu não apanhei.
Vou alugar um sonho para esta noite
talvez romance ainda não sei.
Dar as mãos é assim tão importante?
(Não será antes amar amar amar perdidamente?)
Frustrante é ter-te perdido
para uma memória tão distante.
E se fosse agora agarrava-te a mão
roubava-te o coração
(punha-o discretamente no meu bolso do casaco,
distraía-te dizendo qualquer banalidade)
trancava-te no armário
para todos os dias te vestir
(qual skinny jeans e t’shirt preta)
como uma segunda pele
(evidentemente mais forte que a minha)
que me hidrata e protege e me empurra
para o mundo, um mundo que me acolhe
agora de braços abertos, assim como os teus
que se enrolam imperceptivelmente no meu corpo
que se confundem com os meus
Tu não existes na imagem que agora exibo
mas espreitas pelos meus olhos
(decidiste mudar-te para lá,
revelando um desejo ardente de ver o mundo
como eu o via)
onde cultivaste um brilhozinho que só tu
sabes ofuscar ou salientar.
E há coisas que nunca saem de nós
(não saem mesmo foda-se)
por mais vezes que se mude de pele,
de corpo, de sonhos.
(onde está o delete?)
Can you feel that
[Pairam entre o céu divino e a pobre terra, quais belas metáforas da nostalgia humana, pertencendo a ambos - sonhos da terra, em que esta roça a sua alma conspurcada no céu puro. Elas são a imagem eterna de todo o caminhar, da busca, da ânsia e da saudade do lar. E assim como elas pendem entre a terra e o céu, apreensivas, ansiosas e obstinadas, assim pendem apreensivas, ansiosas e obstinadas as almas dos homens, entre o tempo e a eternidade. ]
A beleza e a melancolia das nuvens, in Da Felicidade, Herman Hesse
Magic Doors
“Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens? “
Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami
Este parágrafo deixou-me a pensar. Reflecte tão bem o que sinto, considero a solidão tão real na sociedade de hoje, posso até compará-la a um vírus que se espalha cruelmente pelo ar, infectando um terço da população. Eu diria que a solidão começa com uma vontade de escapar à realidade repetitiva, aborrecida, banal, um desejo cada vez mais sólido de evitar as conversas de circunstância, as pessoas com quem, efectivamente, já não nos identificamos (e de facto, não temos culpa de sermos seres volúveis e vermos constantemente mudar os nossos interesses, atracções, vontades, necessidades), para além de existir uma dificuldade crescente em estabelecer ligações afectivas com as pessoas, refiro-me a relações íntimas, verdadeiros laços interpessoais, que ultrapassam o superficial, que unem as pessoas, até ao âmago dos seus corações. Existe, sobretudo, alguma relutância nas pessoas em entregarem-se, mostrarem quem realmente são, partilharem o mais íntimo dos seus devaneios, pensamentos, dúvidas, como se receassem perder a sua liberdade. A liberdade é para ser usada com liberdade, ou seja, como cada um bem entender, senão seria apenas mais um conceito vão como tantos outros, no entanto, abrirmos o coração a alguém, deixar que nos vejam só pode significar uma liberdade ainda maior, que nos permitirá abrir mais portas, viajar para outra dimensão, onde poderemos descobrir coisas surpreendentes, que até então desconhecíamos. A solidão como outros problemas da actualidade, depende em primeiro lugar, de nós e da nossa forma de estar na vida, da nossa vontade de mudar.
Não sei se escrever nos torna menos frágeis, acredito que nos torna mais atentos.
Starálfur
Outra vantagem de escrever é que permite-nos transformar um emaranhado de emoções, sentimentos e pensamentos, em algo prático, ou seja, impele-nos a agir, no sentido de transformar o abstracto em concreto, tomar decisões, resoluções, encontrar novas estratégias que de alguma forma resolvam os nossos eternos dilemas, as sempre profundas interrogações, as nossas evidentes fragilidades. Para mim a fragilidade é evidente, bastante evidente por vezes, demasiadas vezes evidente. Desconheço que assim seja para a maioria das pessoas com quem me relaciono e desejava que assim fosse comigo.
Olho para ela e consigo adivinhar-lhe a alma, imagino (e apesar de não passar de imaginação, acredito que esteja perto da realidade) a dimensão da sua frustração pelo sem-número de coisas que gostaria de ter feito sem as ter concretizado, abdicando de si pelos outros, como eu vejo as vezes em que se anulou deliberadamente em função de um bem maior (assim o entendia), o número de desilusões com que se deparou ao longo da vida e lhe foram abrindo lentamente uma ferida que nunca se curaria, nem com a força violenta e perserverante da rotina, nem com o orgulho nas vidas que criou, diligentemente, nem com o feed-back afectivo das pessoas que sabe (sim, eu penso que sabe) que a amam, claro que amam, (como se chama a um sentimento tão intenso que nos veda a vida se estivermos longe dessa pessoa, que nos emudece, que nos põe a olhar para baixo, sempre para baixo) assim como as pessoas que partiram a amaram, (mesmo que se esqueça ou teime em esquecer esse facto). Olho para ela e leio os seus olhos tristes, a sua falsa fúria às vezes grita por ajuda, mas de imediato é silenciada pela sua arrogância, engolida pelo orgulho. Olho para ela e, de facto, basta olhar para perceber quem é, é a isso que chamo de fragilidade. Seria mais confortável se fosse incapaz de a detectar, se me fosse vedado o acesso à verdade do mais íntimo de cada um, ao invés parece que a verdade se passeia perante os meus olhos, insinuando-se, procurando a minha atenção, provocando-me, aliciando-me e por fim, inocentemente, estendendo-me a mão à procura da minha. E eu aceito, tenho de aceitar, quem é que recusa a verdade? Aceito-a cegamente… em troca de um pedaço da minha própria alma.
Mas será que escrever nos torna menos frágeis?
Lonely Carrousel
“...É a escrever que todos os dias tenho consciência da minha identidade.” Li esta frase no romance que ando a ler, Sputnik meu Amor, de Haruki Murakami, e devo dizer que me assenta como uma luva. De facto, quando escrevo consigo realmente organizar os pensamentos, as emoções, catalogá-las como se faz com os livros nas bibliotecas, para saber encontrá-las quando precisar de as resgatar. Catalogar as emoções é uma tarefa importante, mas perceber a sua origem assume-se como algo que faço quase mecânicamente, ou seja, uma resposta natural do meu cérebro aos estímulos que recebeu, e, portanto, tudo o que daí se precipita torna-se ligeiramente out of control. Agora que penso nisso, não será ligeiramente um eufemismo? Talvez. Às vezes. Mas se pudessemos controlar todas as reacções a que somos submetidos diariamente, debaixo deste sol cruel, as próprias acções não teriam piada nenhuma. Provocar os outros idem aspas. E eu acho que faço parte do conjunto de pessoas que vê uma graça particular nisso. E porquê? Não há grande explicação, simplesmente é uma das minhas formas de conhecer quem quero conhecer. É um método, como outro qualquer.
Já me estou a perder.
Falava da importância de escrever, e igualmente de descortinar a origem das emoções. Alguém me disse que um ansioso não deve pensar demasiado nas coisas, que acaba por ser prejudicial. Evidente que eu me englobo nesse leque de indivíduos, os ansiosos: tenho uma pirâmide gigante à minha frente e sei que tenho de a escalar, mas não tenho paciência para ir degrau a degrau, passo a passo, ao invés, para mim é urgente encontrar uma solução que me leve ao topo de uma só vez. Eu anseio pelo topo da pirâmide como a generalidade das pessoas anseiam pelo dia de amanhã. Há uma diferença substancial entre as duas perspectivas perante a pirâmide, que é como quem diz, a vida. Então alguém me disse que tudo evolui, tudo é progressivo e tudo está ao nosso alcance, quase sem darmos por isso, concretizamos etapas que pensámos nunca o conseguir, coleccionamos vitórias, sucessos, contornamos obstáculos com uma destreza surpreendente, muitas vezes mesmo quando se multiplicam. Conseguimos, de facto, tudo, quase sem nos apercebermos, à velocidade de um carrousel é certo, mas com a vantagem de apreciarmos a viagem, doce e bonita. E aproveito para dizer que esse alguém tem toda a razão, de que vale criarmos uma obstinação numa determinada meta, se deixamos tudo o resto para trás, tudo o que nos envolve e alimenta? Que importância tem o clímax de um objectivo maior, quando todos os outros pequenos objectivos ficarem insolúveis em águas profundas?
De uma coisa estou certa, não conseguiria viver sem escrever.
Beauty of you
Uma senhora de meia-idade vai carregada de compras e de passo apressado, num dos passeios da cidade, acompanhada da sua filha de tenra idade, quando, de repente, rompe um dos seus chinelos e continua o seu humilde trajecto, meia envergonhada meia divertida, olhando em seu redor à procura de alguma testemunha, escondendo a sua preocupação. Arrastando agora o pé em questão com alguma dificuldade, as suas compras pareciam-lhe agora mais pesadas, o seu cansaço insuportável e o seu destino adiado. Qual seria o seu destino? O que lhe esperava no fim daquele difícil trajecto? Uma mesa composta, diligentemente preparada por um marido presente, para um reconfortante jantar em família? Ou para além de ter de arrastar um chinelo deteriorado, meia dúzia de sacos do supermercado carregados de mercearias, ainda tinha de planear o jantar, antevendo todas as tarefas que ainda a esperavam? Seria uma pessoa de sorte, tendo sido aquele episódio apenas uma excepção, ou seria ao invés, uma amostra fiel do seu quotidiano? Em que pensaria ao pousar a cabeça no travesseiro, no final de cada dia?
O grande amor
Às vezes sinto uma pressão tão grande sobre mim que quase me impede de respirar. Deve ser o peso do mundo, o peso dos fantasmas que me perseguem e atravessam, fazendo de mim o seu playground favorito. Deve ser o peso do vazio, como é que pesa tanto? O peso das contrariedades da vida, somando o peso das memórias, juntando o peso de tudo o que ainda tenho de fazer, o peso da pirâmide que ainda tenho para escalar e a falta de vontade de o fazer, esmagam-me devagar. A única coisa que dissolve todo este peso que tenho sobre mim é a bossa-nova.
